Geoeventos — 26 dezembro 2011
PIONEIROS – Cinco décadas atrás se formava uma turma cujos alunos protagonizaram uma história de rebeldia que envolveu os governos do Brasil e EUA

A saga dos primeiros geólogos do Estado – Jornal do Commércio / PE 25/12/2011 Caderno de Economia

PIONEIROS: Cinco décadas atrás se formava uma turma cujos alunos protagonizaram uma história de rebeldia que envolveu os governos do Brasil e EUA

Leonardo Spinelli

lspinelli@jc.com.br

 

Há 50 anos, no dia 17 de dezembro de 1961, formava-se a primeira turma de geologia da Universidade Federal de Pernambuco, à época Universidade do Recife. Cada um daqueles jovens integrava na época uma geração de profissionais que descobriu várias das jazidas minerais do Brasil, a exemplo de Carajás, no Pará. Localmente, desbravaram o polo gesseiro do Araripe e comprovaram o potencial de solos como o de Petrolina, onde há mais de duas décadas desenvolve-se a chamada fruticultura irrigada. Enfrentaram grandes dificuldades. O mercado ainda era incipiente, a tecnologia deficiente. Mas o que marcou aquela turma e a torna parte da história do Estado e do País foram aspectos políticos, ideológicos e até diplomáticos.

Aqueles alunos eram os futuros profissionais que o Brasil industrializado imaginado por Juscelino Kubitschek precisava e, de uma certa forma, símbolo deste novo modelo. Desbravadores de novas economias. Tiveram como paraninfo o empresário pernambucano José Ermírio de Moraes, criador do Grupo Votorantim e um dos grandes entusiastas da Escola de Geologia.

COMEÇO DA POLÊMICA

A história desta turma começa quatro anos antes, em 1957, quando JK decidiu que era a hora de explorar o subsolo brasileiro e incentivou a criação do curso em quatro universidades, em São Paulo, Porto Alegre, Ouro Preto (MG) e Recife. “Na sua visão, o Brasil precisava de matéria-prima. Eram os 50 anos em cinco e a busca por este material exigia mais do que o conhecimentos dos engenheiros de minas. Os geólogos e a formação destes profissionais era fundamental para este desenvolvimento”, analisa Haroldo Melo, geólogo formado na turma de estréia.

Naquele dezembro de 1961, Haroldo e parte de seus colegas estavam se formando com um ano de atraso. Não tiveram a primazia de ter como paraninfo o presidente Juscelino, assim como aconteceu com os colegas dos outros Estados, que em 1960, viajaram para recém-inaugurada Brasília e foram honrados pelo próprio presidente da República, criador do curso.

O “atraso” da turma é reflexo direto de um ato de coleguismo que marcou a história daqueles estudantes, jovens de um Brasil que pretendia ser grande e que vivia sob o medo do estranho e desconhecido comunismo. “Não éramos comunistas. Apenas gritamos contra uma injustiça flagrante”, relembra Marcelo Castro, outro colega de jubileu.

Os alunos foram confundidos com comunistas porque se levantaram contra o professor Max White, que lecionava a cadeira de geologia econômica. White havia nascido na Bahia, mas, filho de missionários batistas americanos, tinha a nacionalidade dos EUA.

“Tal professor não tinha muita simpatia pela turma, sendo a recíproca verdadeira. O problema se agravou quando ele aplicou uma prova e deu notas baixas e injustas a vários alunos. Tal fato revoltou a classe que se negou a acompanhá-lo em uma excursão de campo já devidamente programada”, relembra Emmanoel Duarte, entrante do segundo ano, mas que se formou junto com a primeira turma. Ele fez um relato escrito sobre a sua turma intitulado Encontro com pessoas notáveis.

O movimento contra o professor americano levou os futuros geólogos a tomar a escola de assalto, passando 10 dias em greve. Em todo o País e até nos Estados Unidos houve reportagens sobre a rebeldia dos pernambucanos. Saíram matérias em O Cruzeiro e na Time.

“Com o agravamento da questão, entraram no assunto o Conselho de Professores, o reitor e a Cage [Campanha de Formação de Geólogos, programa vinculado à Presidência da República. Tentaram solucionar o problema, o que não ocorreu. Os alunos entraram em greve exigindo a saída daquele professor. Toda a a Escola aderiu à greve e, devido à falta de solução para o impasse, o Diretório Acadêmico resolveu tomar e ocupar as dependências da escola, proibindo a entrada de funcionários e professores”, lembra Emmanoel. As portas foram lacradas, a greve se arrastou e foi terminada sem consenso. O resultado foi a perda do ano letivo para esses alunos.

O consultor Iran Machado relembra que o ano letivo não foi a única privação que ele e seus colegas passaram por conta do ato de rebeldia. “Havia a ameaça de o Exército penetrar na escola. O comando do Quarto Exército era bem próximo e o seu comandante era Humberto Castelo Branco [ditador que governou o Brasil de 1964 a 1967″, relembra Iran. A Escola de Geologia ficava num edifício na esquina da Rua do Hospício com a Riachuelo. Perto do comando militar e da unidade local da União Nacional dos Estudantes (UNE). Através da sua sede no Rio de Janeiro, a UNE comprou a briga, contatou o embaixador americano e pediu o afastamento de Max White da escola. O embaixador aceitou, mas com a condição de tirar os dois professores e todos os livros, o carro e mais o material didático doado à escola. Uma espécie de represália. Os alunos desistiram do movimento. Era o começo de 1960. Também perderam a bolsa de incentivo do governo brasileiro e tiveram de cursar o terceiro ano de novo por causa da disciplina de geologia econômica.

“Foi criado um clima de inquisição. Os materiais foram repostos mais tarde graças à interferência de José Ermírio de Morais”, lembra Emmanoel.

Na opinião de Iran Machado, o grande complicador é que aqueles alunos mexeram numa área que envolvia interesse de duas nações. O governo americano havia bancado parte do projeto de formar geólogos no Brasil. “Eles [OS tinham interesse nos recursos minerais da América Latina. E os geólogos iriam descobrir novas jazidas. O que havia no subsolo brasileiro além de ferro, manganês, ouro e diamante? Ninguém sabia”.

O professor Rubem Queiroz Cobra, que hoje mora em Brasília, foi assistente de Max White na Universidade do Recife. Ele acompanhou de perto todo aquele movimento.

No site www.cobra.pages.nom.br/geo-maxwhite.html , Queiroz Cobra disponibiliza uma pequena biografia sobre seu colega americano. Procurado por telefone pelo JC, na última quarta-feira, Queiroz Cobra foi atencioso e educado, mas preferiu não comentar o episódio da greve dos alunos. Já Max Gregg White morreu em Arlington, na Virginia, em janeiro de 1975. Tinha 58 anos de idade.

“Ele era técnico. Não era professor”

De acordo com Iran Machado, o pivô da desavença, professor Max White, não sabia ensinar. Para lecionar nas primeiras escolas, foram selecionados profissionais de reconhecido saber técnico. Boa parte deles era estrangeira. “Ele era técnico, não era professor.” Na visão de Iran, White fazia parte de um movimento americano que atrasou a entrada do Brasil na geração de energia por meio de fusão nuclear em 20 anos.

“Ele participou de conspiração para derrubar o primeiro presidente do CNPq, o almirante Álvaro Alberto, que tentava fazer o Brasil ingressar na era atômica.”

Iran cita o livro do deputado Dagoberto Sales, Energia atômica: um inquérito que abalou o Brasil. Na publicação, o deputado relata os fatos da CPI da Energia Atômica, realizada pelo congresso entre 1957 e 1958, cujo um dos objetivos era apurar a participação dos EUA numa conspiração. Álvaro Alberto dá seu nome à Usina de Angra 1.

“Tropas americanas impediram o embarque de um reator nuclear que o Brasil comprou da Alemanha e a gente teve de engolir isso. Não interessava aos americanos que nós desenvolvêssemos a tecnologia nuclear. A Usina de Angra foi atrasada em 20 anos por conta disso. Como eles não tinham a mesma força em países da Ásia, Índia e Paquistão entraram na era nuclear e dispõem hoje de bomba atômica. A América Latina sempre foi o quintal dos EUA”, critica o ex-aluno.

Antes de ser um ato de rebeldia, a reação dos jovens alunos de geologia, foi uma demonstração de amizade. “Havia coesão de grupo. Nós viajávamos pelo Nordeste inteiro naqueles ônibus, de Exu, Araripina. A gente tinha o companheirismo que não se tinha em outros cursos. Por isso, era duro abandonar quatro ou cinco colegas que vinham sendo sacrificados por um professor.”

Na visão de Iran, hoje doutor em planejamento em economia mineral e ainda na ativa, ninguém da turma de 1961 se arrepende de ter participado da greve contra o professor americano.