GEÓLOGOS DA UFPE 1970: VINTE E UM POLÍTICOS E UM GEÓLOGO!!!


Por Antonio Christino P. de Lyra Sobrinho (Clarinete, Dromedário, Bucho de lama, Bofetina)


Dentre as muitas turmas diplomadas pelo Curso de Geologia da Universidade Federal de Pernambuco, desde que iniciou estas atividades no longínquo ano de 1961, uma que guarda muitas peculiaridades é a de 1970. A primeira ocorreu logo no vestibular, o de 1967 foi o primeiro unificado promovido pela UFPE e também, segundo nos consta, marcou a estréia e a despedida do critério de correção de provas em que três respostas erradas anulavam uma certa, o denominado ponto negativo.

Por influência do rigor da correção e dos critérios de aprovação, nota mínima 4 por disciplina e global ponderada mínima 5, apenas quatro candidatos lograram transpor tão difícil obstáculo: Airton José de Lima (Grilo Falante, Pão Doce, Jaca Mole), Carlos Alberto Martins (Cara de Cachorro, depois abreviado para Cachorro) Mário Gildo Torres de Miranda (Esparrel) e Murilo de Souza Marroquim (Urso Branco).

O baixo índice de aprovação se repetiu, praticamente, em todos os cursos, e consequentemente um elevado número de vagas permaneceria ocioso. Diante do inusitado da situação, o Conselho Universitário decidiu criar a figura do aluno recuperável. Este, matricular-se-ia na Universidade sob a condição de, no final do primeiro semestre, submeter-se a provas de um novo vestibular, cujas regras seriam as mesmas do primeiro, só que os alunos fariam provas apenas das disciplinas nas quais não tivessem logrado aprovação.

Em que pese estar o País sob a vigência do regime militar implantado pelo golpe de 31 de março de 1964, e que cerceou as liberdades democráticas, foi gerada uma grande mobilização política, e, paralelamente, se recorreu à justiça, cuja decisão final foi a eliminação do segundo vestibular. A comemoração foi uma carraspana memorável ao redor do tanque que existia no pátio interno da Escola na Rua Dom Bosco 1002, e que servia de palco para os trotes nos feras. Provavelmente sem fundo de verdade, comentava-se na época que um dos recuperáveis de Geologia, José Antonio Lopes Caúla, namorava com a filha do Juiz Federal que julgou a causa, e que isto teria influído no posicionamento do meritissimo juiz !!!

No final do primeiro ano, o regime ainda era seriado, além de algumas desistências, ocorreram muitas reprovações, perfazendo 13 alunos, o que fez com que no segundo ano a turma ficasse reduzida a 22, e destes alguns ainda ficaram em dependência em Geologia Geral e Histórica ou Mineralogia. O regime do Curso, em tempo integral, induzia a uma grande convivência, que aliada às mobilizações de cunho político, serviram para infundir nos alunos um alto grau de amizade e solidariedade, cujos reflexos se fizeram sentir ao longo do restante do Curso. Além destes aspectos, a efervescência provocada pela luta de oposição ao regime ditatorial levou à politização da turma, na qual predominavam posicionamentos contrários ao status quo vigente.

Dentre os alunos que foram reprovados no primeiro ano o Carlos Alberto Soares (Julião ou Baixinho), de grande militância política, em 1969 engajou-se na luta armada contra a ditadura e, obviamente, abandonou o Curso. Envolvido em ações violentas, do tipo assalto a bancos e outras, foi preso, condenado à prisão perpétua e cumpriu parte da pena na Penitenciária Agrícola de Itamaracá. Anos mais tarde, após a anistia de 1979, foi solto e tentou retomar os estudos de Geologia em São Paulo, mas terminou optando por concluir sociologia na USP.

Na grande excursão do final do ano (1967), abrangendo as cadeiras de Geologia Geral e Histórica, e Mineralogia alguns causos merecem registro. Logo nas proximidades de Moreno, município da Região Metropolitana do Recife, deu-se a primeira arguição de campo de um grupo composto por 4 ou 5 alunos. Examinado o afloramento, descrita a rocha, identificada a sua composição mineralógica chegou-se à sua denominação: gnaisse. Eis que o Professor fez a pergunta fatal para os pobres feras, todos eles vibrando com o seu martelo na mão, o cantil na cintura, o depósito plástico com HCl, e a indispensável caderneta de campo: é um ortognaisse ou um paragnaisse ? A empulhação foi geral, foi então que um dos alunos, por sinal um dos quatro que conseguiram aprovação no vestibular, teve a presença de espírito de dizer: Professor, ... foge aos meus conhecimentos!!!.. e a risadagem foi geral.!! Decididamente essa não era uma pergunta a ser feita a míseros feras na sua primeira excursão de campo !!!

O Professor, muito durão e arroxado, havia prometido que se flagrasse algum aluno bebendo durante o período de trabalho da excursão o mandaria de volta a Recife, com nota zero no Relatório, o que significava a reprovação. Nas proximidades de Vitória de Santo Antão, antes de descerem para observar um afloramento, alguns ocupantes do último banco do ônibus deglutiram, acintosamenrte, o conteúdo de um cantil que correu de mão em mão, ou de boca em boca. Sintomaticamente, após a deglutição todos davam uma cusparada, procedimento bastante arraigado dentre os consumidores da branquinha. Ao assim procederem todos os alunos tinham perfeita consciência de que o Professor os estava observando através do espelho retrovisor interno do ônibus. O cantil foi deixado, proposital e displicentemente, sobre o banco, e todos os alunos desceram. O Professor permaneceu dentro do ônibus e, uma vez sozinho, dirigiu-se ao último banco para cheirar o cantil. :Para seu desencanto o conteúdo era nada menos do que água mineral pura e cristalina, mas a desconfiança e o ato de cheirar o cantil valeu-lhe uma sonora vaia, acompanhada de xingamentos à veneranda senhora sua mãe, uma injustiçada, a exemplo das mães dos árbitros de futebol.

Em 1968 o CCC - Comando de Caça aos Comunistas, após depredar os Diretórios Acadêmicos de Filosofia (naquele tempo ficava na Rua Nunes Machado, próximo da Igreja da Soledade e ao lado da fábrica da Fratelli Vita) e de Engenharia (Rua do Hospício), ambos dirigidos por grupos politicamente de esquerda, colocou como o próximo da lista o de Geologia, Escola que na época era chamada de “Moscouzinho”. Vale salientar que naquele ano o Governo Militar, presidido pelo Mal. Costa e Silva, editou o fatídico Ato Institucional no 5 (AI-5), que suprimia liberdades democráticas mais comezinhas; o Presidente do Diretório Acadêmico da Escola de Engenharia, Cândido Pinto, sofreu um atentado que o deixou paraplégico para o resto da vida; e foi trucidado o Padre Henrique, assessor de Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife e ferrenho opositor ao regime militar.

A reação dos estudantes de Geologia foi preparar uma recepção quente para os integrantes do CCC. Coquetéis molotov foram preparados e alunos destacados para posições estratégicas. O grupo que se estabeleceu no céu (parte mais alta da Escola), além dos coquetéis, estavam armados de rifle calibre 36 equipado com luneta. À noite, portanto, a Escola exibia um cenário semelhante a um quartel nos instantes que antecedem ao combate bélico. Felizmente, para os dois lados, o CCC nunca apareceu por lá.

O mesmo ano de 1968 marcou também a edição do Decreto 477, que punia com a cassação do direito de estudar os universitários que tivessem atuação política contrária ao regime militar. Na Escola de Geologia estiveram ameaçados de punição com base no malfadado diploma legal Cleodon Urbano Filho (turma de 1969), Evenildo Bezerra de Melo (turma de 1969), Airton José de Lima (turma de 1970), Carlos Alberto Martins (turma de 1970), Luis Gonzaga Gomes Lira (turma de 1970), Mário Gildo Torres de Miranda (turma de 1970) e Paulo Jaime Sousa Alheiros (turma de 1971). Para respaldar a punição o 477 previa que as faculdades realizariam inquéritos sobre as atividades dos alunos e, uma vez "comprovada" a participação em mobilizações políticas seria aplicada a pena. A expectativa e tensão vividas pelos estudantes de Geologia, desnecessário dizer, foi enorme. Alguns cogitaram inclusive de se exilar na Venezuela, onde vislumbravam a possibilidade de concluir o curso. Salvou a todos a coragem cívica dos professores que conduziram o inquérito e que concluíram pela inocência do grupo. Vale destacar a posição corajosa do Professor Arão Horowitz que declarou “Enquanto eu for diretor da Escola de Geologia nenhum jovem será proibido de estudar”; e a do Professor Ivan de Medeiros Tinoco que, sendo relator do processo no conselho da Escola, submeteu o seu relato à avaliação dos alunos processados para que os mesmos, além de tomarem conhecimento prévio, contribuíssem com argumentos para inocentá-los.

Proibir jovens universitários de estudar por conta da sua militância política representa uma tremenda violência. No caso da nossa turma tivemos de enfrentar, além da violência do regime militar, a fraqueza de caráter de colegas de Escola que, em razão de desentendimentos pessoais, “deduraram” o colega Mário Gildo aos órgãos de segurança (DOPS, CEMIMAR, etc), o que fez com que seu nome fosse incluído no grupo a ser cassado, e em conseqüência, elevou às alturas o nível de indignação de toda a comunidade.

Além de ter sido a turma que mais contribuiu para o grupo dos “cassáveis” a de 1970 foi a também a primeira que, por razões políticas optou por não realizar festividades oficiais de formatura nem sequer apor placa comemorativa ao evento com o nome de autoridades do regime militar. Vale destacar no entanto, que ocorreram muitas confraternizações nas casas dos colegas e em bares, principalmente quando ao colegas viajavam para assumir empregos.

Cabe destacar ainda que naquela época, com o óbvio patrocínio do infame governo ditatorial vigente, foi incluída no quarto ano a cadeira denominada “Estudo dos Problemas Brasileiros – EPB”. Como a turma se negasse a assistir as aulas, estivemos ameaçados de não colar grau. O impasse foi contornado através de negociação e no final nos submetemos apenas à prova final.

Por essas e outras, tem total cabimento a observação do Professor Benjamin Bley de que a turma de 1970 era composta por vinte e um políticos e um geólogo.